QUALIDADE DE GRÃOS

Danos do percevejo na soja são maiores do que se imagina

Além dos descontos na hora da venda, muitos grãos danificados não chegam a ser contabilizados pelo produtor na hora da colheita. Perdas podem chegar até 12 % a maisOs danos que o percevejo pode provocar no grão de soja vai além da deformação ou perda de peso, detectados durante a classificação. Este dano segue também na armazenagem. O prejuízo que a praga causa acaba passando despercebido pelo produtor, e isso influencia no resultado final da safra.

A cidade de Rio Verde, localizada a 238 de Goiânia (GO), tem uma unidade da Caramuru Alimentos, um dos maiores grupos de grãos do Brasil. Cerca de 35 mil toneladas da oleaginosa circulam por esta unidade. O material é classificado e encaminhado para processamento. O gerente de armazenagem e classificação da empresa, José Ronaldo Quirino, explica como é o grão ideal para a produção de óleos e outros produtos.

– O grão de soja ideal é o grão esférico, com coloração clara na superfície. É totalmente claro na parte de dentro, que nós chamamos de cotilédone. O classificador observa se há manchas no grão. Se houve mancha nesse cotilédone, ele faz o corte e identifica. Se essa mancha provocar outra mancha e criar característica, dentro do cotilédone, aí esse grão é considerado como grão danificado pelo percevejo. O grão ideal é aquele que, ao tocar o cotilédone, ele vai ter uma coloração totalmente característica da soja. Ou seja, um creme bastante claro e sem nenhuma mancha que interfere na coloração normal do produto. Este é o grão ideal, essa questão da circunferência, ele pode mudar de acordo com a variedade. A variedade pode ser um pouco mais comprida ou um pouco mais esférica, mas o grão ideal, ao corte, seria aquela coloração clara, bastante creme, sem nenhuma mancha, sem nenhuma coisa que degenere a característica normal da soja – explica.

O problema é que, com o passar do tempo, os responsáveis pela classificação vêm encontrando mais problemas provocados pelo percevejo.

– Ninguém quer este tipo de defeito, mas é um cuidado que a gente tem que ter. Porque é uma coisa que parece que é pouco, mas pode ser muito grande para toda a cadeia produtiva. A gente está percebendo, nos últimos cinco anos, que está crescendo esses tipos de grãos danificados por insetos sugadores da soja – comenta Quirino.

Conforme os danos são maiores, menor é a remuneração do produtor e maior é o custo para o processamento da soja. Uma situação que não beneficia ninguém.

– Pela instrução normativa 11/2007, é uma norma que regula a classificação, a identidade e a qualidade da soja. O tipo de grão com a mancha branca deve ser pesado separadamente. Este peso deve ser dividido por quatro e só assim ele vai entrar na somatória dos outros defeitos, que seriam os grãos choco, imaturo, fermentados, ardidos, queimados. Ele entra nessa somatória, mas com o peso menor do que esses defeitos. Que dizer que seria um peso de 25% de degenerativo da qualidade do grão. O que tem que se tomar cuidado, principalmente no armazenador, que quando ele recebe uma grande quantidade deste tipo de grão, ele vai fazer dividindo por quatro. Porém, se ele jogar no armazém, ele precisa tomar cuidado na troca de ambiente. Isso pode induzir a um processo fermentativo do grão – diz.

O especialista cita os principais danos provocados pelo percevejo e identificados no processo de classificação. O primeiro é o rompimento da película que protege o grão.

– Ao picar, o percevejo provoca uma ruptura, e nessa ruptura vai facilitar mais a entrada de água, micro-organismo, e vai causar problemas também na armazenagem. Esse problema pode estar advindo do campo. Se o percevejo picar no próprio campo e houver uma condição de umidade elevada, com chuvas constantes, essa vagem vai absorver água e micro-organismo, o que vai facilitar o desenvolvimento desse micróbio – alerta o gerente de armazenagem da Caramuru Alimentos.

Os maiores danos são verificados ao abrir o grão. Algumas manchas externas podem não representar problemas, outras comprometem totalmente o grão.

– A mancha pode ter colorações diferentes, ela pode ser em alto-relevo, ela pode dar uma depressão na película, por causa da picada. Pode ser marrom-escuro, pode ser preto, então há diversas cores para o classificador observar. Também pode ser de uma cor quase imperceptível, o classificador tem que ter uma percepção muito grande para observar a mancha, aí ele faz o corte e tem uma mancha característica no cotilédone. Para ser considerado como grão danificado por percevejo, ele tem que ter uma característica de coloração branca no cotilédone, não só na superfície. Se estiver só na superfície da soja, ou seja, na película, ele não é considerado um grão danificado. Precisa estar penetrado no cotilédone – reforça José Ronaldo Quirino.

O pesadelo do produtor pode continuar depois. O grão atacado pelo percevejo vai para o armazém contendo uma toxina que pode provocar a fermentação da massa dos grãos.

– Outra coisa, muitos agricultores armazenam e começam a comercializar depois o produto. Aí ele tem que tomar cuidado, porque aquilo que às vezes tem um peso menor como desconto acaba passando despercebido, mas se ele tiver algum problema de armazenagem, ele vai passar a fermentar. Aí é um desconto um para um, ou seja, o peso multiplica por quatro, então tem que tomar cuidado, tanto o armazenador quanto o produtor que armazena a soja. A indústria também armazena e pode transformar em fermentado, isso vai fazer com que ela tenha maior custo no tratamento da acidez e na clareação do óleo. Assim acaba onerando todo o custo de produção no Brasil – ressalta.

Como diz a máxima dos engenheiros agrônomos: o grão não melhora depois de colhido. A partir da colheita ele pode apenas se manter ou piorar.

– Em todos os treinamentos que nós damos para nossos operados a gente fala “nós não melhoramos os grãos, nós mantemos a qualidade do grão”. Se ele vem desta forma e a gente consegue manter, está tudo ok. Mas o problema que quando ele passa para esse problema, gera todo um desconforto para produtor, indústria, armazenador e os outros envolvidos no processo – explica Quirino.

Por isso, todo cuidado é pouco. Na armazenagem também é preciso manter controle das condições para não provocar mais danos aos grãos.

– Vem do campo dessa forma como eu te disse: tem a porta de entrada, numa mesma condição de armazenagem. Supomos que entrou na temperatura um pouco mais elevada, na umidade de armazenamento mais elevada, esse grão que tem essa penetração facilidade a entrada de micro-organismo de umidade. Isso vai influenciar na rentabilidade do produtor. Ou seja, a gente tem facilidade de penetração de fungo, de micróbios que vão gerar essa mancha, que chamamos de mancha de fermentado. A indústria, os armazéns, aquele produto que entrou e gerava um desconto menor, vai gerar um para um e o armazenador vai ter dificuldade de expedir esse produto, porque vai gerar desconto para ele na hora de uma empresa comprar esse produto dele – alerta.

Além da fermentação, provocada pelo dano do percevejo no grão, também existe a Soja Louca I, ou grãos imaturos, que são causados pela picada do inseto. A planta atacada pelo percevejo fica com a haste e vagens verdes, mesmo após suas vizinhas já estarem em ponto de colher. Esses grãos com maior teor de umidade também serão problemáticos para o armazenador e a indústria. Por isso, a sua presença nas cargas precisa ser vista com muito cuidado.

– Agora, esta questão do grão imaturo e o percevejo, temos observado nesses últimos cincos anos um aumento tem se mostrado, com muita evidência, em relação ao percevejo e a presença do grão imaturo. Este grão imaturo é um problema sério, porque ele fica com umidade maior na armazenagem e vai trazer problemas na qualidade – explica o especialista.

Segundo Quirino, o grão imaturo que vem causando prejuízos ao chegar misturado com os grãos de qualidade deve ser uma preocupação de toda a cadeia. Não só do produtor e não apenas da indústria.

– O grão imaturo pode ser uma das causas que nós chamamos de ‘soja louca’, causada por uma toxina que o percevejo inocula na soja. Fala-se em aplicação de inseticida, se fala em variedade, se fala em degeneração de cultivares, que começa a ter maturidade desuniforme e tem trazido esse problema de grãos imaturos para dentro dos armazéns de vagem – completa José Ronaldo Quirino, da Caramuru Alimentos.

A professora Jurema Rattes, da Universidade de Rio Verde, explica como é a chamada soja louca, que é provocada pelo percevejo.

– Isso significa que a soja pode ter partes verdes únicas na planta e partes secas. Isso permite que a umidade da cultura fique maior, impossibilitando a colheita. Então essa soja tem que ser dessecada para depois ser colhida. E muitos dos grãos não estão prontos para serem colhidos. A soja louca, esse distúrbio da maturação fisiológica é provocada pela alta população do percevejo ou o frequente ataque dele. E o produtor não percebe essas picadas que eles vão fazendo continuamente. Isso acaba provocando esse distúrbio chamado soja louca – explica Jurema Rattes.

Danos que prejudicam toda cadeia produtiva

O problema vai adiante, até mesmo no custo para o processamento até chegar ao óleo. Há perdas que o produtor nem chega a calcular. Os grãos podem ser considerados defeituosos por diversos problemas. Os grãos imaturos vêm aumentando e podem provocar mais perdas no armazenamento.

Os grãos podem ser considerados defeituosos por diversos problemas. Os imaturos vêm aumentando e podem provocar mais perdas durante o armazenamento.

– Os outros defeitos: os fermentados, o ardido, o choco, o imaturo que tem esverdeado, o grão imaturo tem sido um problema sério e que está aumentando nesses últimos anos. Com uma força muito grande. Porque o grão imaturo está originado da vagem verde e os armazéns têm recebido em excesso – comenta Jurema.

Esses problemas acabam gerando descontos no pagamento ao produtor, porque provocam maiores custos na industrialização do óleo, por exemplo.

– Porque, de repente, ele não consegue clarear o óleo ou o custo de controle de acidez é muito alto. O ideal era que se tivesse uma coloração totalmente clara, acidez baixa e custo baixo – ressalta a docente da Universidade de Rio Verde. À medida que você aumenta isso vai ter um problema. Outro fator é que quando você já tem muitas incidências de grãos fermentados, originados ou não da picada do percevejo, você chega num consumo alto de óleo de ácido, para o controle da acidez. Além desse custo, você tem o problema da borra. Então você já perde o óleo físico também, tem perda física de óleo em função do controle. Então você perde o rendimento de óleo dentro da indústria – reforça.

Em Mato Grosso, na cidade de Rondonópolis, a Fazenda Guarita recebeu da indústria o alerta sobre a presença de grãos danificados. Depois disso, os técnicos de propriedade passaram a dar mais atenção ao inseto.

– Na lavoura, se você não vê ao olho nu, você tem que cortar o grão para ver o alto índice de percevejo. Aí você já sabe que vai ter problema se não fizer o controle – afirma o técnico da fazenda Everton Mann Appelt.

Questionado sobre o alerta da indústria, o custo de produção e a rentabilidade, Appelt explica o que mudou na rotina da propriedade.

– A gente nota quando a indústria grão faz a classificação e começa a vir o desconto. Nós nos programamos para não deixar isso acontecer novamente. Está se notando um aumento nas aplicações para percevejo, ano após ano. E é um aumento no custo da lavoura – lamenta.

De olho nesta situação e no crescente aumento das populações de percevejo ultimamente, a professora Jurema Rattes, que também coordena o Laboratório de entomologia agrícola da Universidade de Rio Verde, vem se dedicando a estudar o percevejo e seus danos para a produção de soja.

– O produtor está acostumado com insetos desfolhadores, que é o caso das lagartas e insetos maiores. O percevejo surge num momento já no meio do clico mais reprodutivo da soja e na formação de vagens. A baixa população já causa um dano maior e ele se alimenta silenciosamente. O produtor não percebe que o percevejo está presente, e, no momento da colheita e pós-colheita, ele percebe que foi atacado pela praga de tal importância. Então o percevejo é uma das principais pragas para a cultura da soja – explica Jurema Rattes.

O momento do controle é um problema, pois o produtor quer aproveitar outras práticas e nem sempre elas irão coincidir com a hora ideal de aplicar o inseticida.

– Ele faz a aplicação num determinado momento e, geralmente, é em torno da primeira aplicação do fungicida e em mais uns 20 dias ele faz a segunda. Então ele vai dar esse período para outra aplicação. Ás vezes, esse período pode ser muito longo e, talvez, a população de percevejo chegue mais cedo ou já estavam ali os ovos ou as ninfas de um determinado percevejo, ali então ele perde este momento. Seria muito interessante fazer uma aplicação isolada, mas eu acho que o produtor não faz esses cálculos, é mesmo pelo operacional. Já que a máquina vai entrar no campo para o fungicida e já aproveita a oportunidade para colocar o inseticida junto – comenta.

A docente da Universidade de Rio Verde faz um apelo aos produtores.

– O que nós estamos propondo para o produtor é que ele conheça um pouco mais a vida dos percevejos e seus danos. Para que assim ele separe, pelo menos, uma aplicação específica contra o percevejo. No passado, isso acontecia com a chegada da ferrugem asiática na soja, então a doença se tornou mais importante que o dano do percevejo. O produtor vem utilizando uma aplicação de carona, o inseticida vai junto com os fungicidas – alerta.

A aplicação certeira é necessária porque o percevejo tem uma vida longa.

– Esses percevejos, como eles têm vida longa, na fase adulta eles vivem em torno de 200 dias – entre 130 e 200 dias. Nós temos um trabalho no laboratório onde nós criamos em plantas daninhas, durante a entressafra e nós chegamos a 60 dias nas plantas daninhas confinado. Realmente é um inseto com grande resistência. Ele tem um período muito grande na soja. As sojas mais utilizadas no Cerrado são de hábitos determinados, o que significa que elas começam a florescer muito cedo. O período reprodutivo é menor, atualmente os percevejos tem uma vida em torno de 70 dias dentro do ciclo da soja, e pode ter tempo suficiente para chegar, acasalar, reproduzir e atacar a cultura da soja. Então ele tem mais tempo para causar danos ao produtor – salienta Jurema.

O que vêm preocupando alguns pesquisadores são os danos que produtor não vê. Grãos chocos ou não desenvolvidos que nem chegam a entrar na colheitadeira, por conta da picada do percevejo.

– O principal dano do percevejo para o produtor é que ele não deixa o grão se formar. Esse chocamento na fase inicial de chocamento de grãos R5.1, R5.2, R5.3 onde estão bem na fase inicial do grão e o percevejo se alimenta desse grãozinho em formação. Não deixa que ele se forme e, no momento da colheita, ele vai ser descartado junto com a casca da vagem. O produtor não tem noção de quanto ele perde e do que é jogado fora no momento da colheita desses grãos que não foram formados porque os percevejos não permitiram essa formação. O maior dano seria esse: o percevejo não permitir que o grão complete todo seu desenvolvimento – orienta.

E o produtor não tem ideia de quanto está perdendo.

– Ele não tem ideia. Ele tem ideia daquele grão que foi picado em R6, que mostrou a picada, e que vai para o armazém, vai ser classificado e entrar em uma escala de desconto. Mas aquele grão que o percevejo passou a se alimentar em R5.1 e R5.4 vai ser descartado na colheita. Ele não é colhido, não vai para o armazém, e o produtor não tem noção de quanto ele perde nesse momento. Eu considero um dos maiores danos que o percevejo causa. Quanto que o produtor deixa de colher em função de um ataque do percevejo – lamenta a coordenadora do Laboratório de entomologia agrícola da Universidade de Rio Verde.

A professora Jurema Rattes está coordenando um trabalho que compara a colheita e debulha manual com a mecanizada. A diferença impressiona. A docente explica que as perdas, neste caso podem chegar a 12% que não foi contabilizado.

– Esse trabalho compõe exatamente de você tirar uma amostra de uma colheita mecanizada, e nessa amostra você se impressiona o quanto se perdeu com percevejo. Essa amostra é levada para o armazém e é classificada. E a outra amostra nós fazemos quando a debulha é manual e você abre todas as vagens e tira esses grãozinhos que ficaram chochos na colhedeira e foram descartados sem perceber. Nós percebemos que a perda é de 3% na amostra mecanizada e com a debulha manual chega a 15%, ou seja, que 12% passaram despercebidos pelo produtor. Então esse é um dos maiores problemas. Nós temos que mostrar ao produtor o que se deixa de colher em função do ataque do percevejo – encerra Jurema Rattes.

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