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SUA HISTÓRIA

‘Cresci, quebrei e precisei recomeçar do zero’

Conheça a história do pecuarista Antônio Garcia da Silva. Ele se orgulha de ser um produtor que “sente como é acordar cedo e está lá, diariamente, tomando as decisões”

03 de maio de 2018 às 11h06
Por Karoline Meira | São Paulo

Fonte: Antônio Garcia/arquivo pessoal

O pecuarista Antônio Garcia da Silva desfrutou dos prazeres de uma infância simples, mas feliz, como boa parte das crianças nascidas no campo. Junto dos dois irmãos, foi testemunha das conquistas dos pais no interior de Mato Grosso do Sul. O pai, Lourenço, plantava arroz, milho e café como meeiro. Aos sete anos, Antônio começou a trabalhar na roça para ajudá-lo.

“Eu quero preservar esse modo de vida.”

“Levava o almoço para o meu pai e por lá ficava, ajudando a preparar o terreno para plantar. Ajudava a plantar milho, arroz e feijão”, recorda.  Ali foi criado e incentivado pelos pais a trilhar o mesmo caminho.

“É uma coisa muito prazerosa. Veio de herança, meu pai deixou isso para mim. Eu quero preservar esse modo de vida. Apesar de ser muito trabalhoso, é um prazer lidar com o campo”, diz orgulhoso. Antônio carrega os bons momentos de sua infância e com a sua família. O predileto são as bodas de ouro de seus pais.

Foto: arquivo pessoal

Apesar de ter começado a trabalhar muito cedo, os pais fizeram questão que o filho estudasse e Antônio passou a morar na fazenda do tio, próximo a Inocência (MS). “Comecei a estudar com nove anos de idade. Quando fui para a escola, eu já sabia as quatro operações. Sabia ler e escrever”, disse.

Como qualquer criança, Antônio relembra suas histórias de colégio com os amigos. “Em uma feira de ciências, isso no ginásio, conseguiram um crânio humano. Nosso grupo tinha que expor uma forma de energia. Nós mostramos uma maquete de uma hidroelétrica. Mas aprontamos uma presepada. Conseguimos uma vela e colocamos ela acesa dentro do crânio do outro grupo para assustar as pessoas. Resultado: nosso trabalho foi desclassificado porque nos deduraram”, brinca.

Durante a juventude, Antônio se mudou para Três Lagoas (MS) para concluir o ensino médio. Em 1976 foi para Curitiba (PR). Na capital paranaense, cursou ciências econômicas na Universidade Federal do Paraná.

Na faculdade, Antônio conheceu estudantes alemães. Um deles o convidou a fazer especialização em cooperativismo na Alemanha. Antônio chegou a ir ao consulado, mas mudou de ideia. “Não vou mexer com isso, eu não domino a língua”, disse na época. Perdeu essa oportunidade de mudar completamente a vida. Uma outra oportunidade surgiu na mesma época, mas esta ele não deixou passar.

Foi em Curitiba que ele conheceu Celina. Ela é formada em administração de empresas pela Pontifícia Universidade Católica (PUC-PR). Com o tempo, o namoro virou casamento. E unidos eles atravessaram a primeira grande crise.

“Tive que reestruturar a minha vida.”

Em 1990, Lourenço, o pai de Antônio, teve uma crise de depressão. Ele vivia em Três Lagoas (MS), para onde o casal se deslocou e viveu por um ano. Foi durante esse período que nasceu Maurício, o filho de Antônio e Celina. Isso melhorou bastante o astral da família. Com Lourenço melhor de saúde, a família voltou para a capital paranaense.

Se dependesse da vontade da mulher, eles jamais teriam deixado Curitiba. Mas, apesar da contrariedade de Celina, a família se mudou para Inocência (MS) em 1994. Deixaram para trás todas as facilidades que uma cidade grande oferece, para conhecer e se adaptar à calmaria de um pequeno município e o trabalho duro no campo.

“Tem que se adaptar a uma nova realidade. Saímos de uma cidade com 1,8 milhão de habitantes e fomos para uma com apenas sete mil. É uma grande diferença. Eu tinha todo o conforto em Curitiba: médico, supermercado e açougue na esquina. Aqui, não tem essa facilidade. Tive que reestruturar a minha vida.”

Em meio às dificuldades para se adaptar, Antônio resolveu construir uma nova casa e, na sequência, enfrentou uma grande crise financeira pela falta de emprego na região. “Eu gastei toda a minha poupança, não tinha capital de giro e tive que recomeçar tudo do zero”, afirma. Hoje, ele se arrepende de ter gasto com a construção da casa e disse que, se voltasse no tempo, teria pego o dinheiro e investido em gado.

Hoje com 64 anos, Antônio compara a Inocência atual com a de sua infância. “Tem muita diferença. As coisas evoluem, e a gente percebe. Meu pai vendia muito na época, tinha muito laticínio aqui. Era tudo manual. Ele tirava o leite na mão, sem o mínimo de critério e higiene. Não tinha orientação”, diz.

Depois de prestar assessoria em uma empresa de produtos lácteos e trabalhar em uma transportadora de cargas em Curitiba, Antonio abriu um escritório de contabilidade e prestou assessoria para o Sindicato dos Produtores Rurais em Inocência e chegou a fundar uma cooperativa de leite na cidade. “Eu fornecia leite para a cooperativa, mas o mercado era difícil. Então eu saí”, conta. Hoje, ele mantém contato com a cooperativa e continua fornecendo informações e orientações.

Antônio lembra e analisa as transformações que a sua cidade passou. “Transformação foi quando o governo liberou muitos financiamentos a longo prazo para os produtores rurais. O que era cerrado, se transformou em pastagens. As terras no ínicio eram muito baratas, e deu para o meu pai comprar uma área de 147 alqueires paulistas”, diz.

“O que era grandes extensões de terra com baixa renda se transformou, e as grandes áreas foram fracionadas em propriedades menores e mais produtivas com a elevação da renda. O financiamento chamava-se Polocentro para a região Centro-Oeste”, lembra. O pecuarista e economista está começando a escrever sobre desenvolvimento e diz que este modelo pelo qual a cidade passou chama muita a sua atenção.

O pecuarista se orgulha muito do seu trabalho e faz questão de acompanhar cada detalhe das atividades feitas em sua propriedade: “Sempre digo para a minha família que o produtor de verdade é aquele que gosta da atividade. Não aquele que mora em São Paulo, tem uma propriedade aqui e vem fazer turismo. Estou falando do produtor que sente como é acordar cedo todos os dias e está lá, diariamente, tomando as decisões”.

“A gente faz as contas e vê que dessa vez vai tomar prejuízo.”

Foto: arquivo pessoal

Antônio tem 137 cabeças de gado. Fiel a seus princípios, ele fica atento a cada detalhe de seu rebanho. “A gente tem que acompanhar a saúde do animal, a vigilância sanitária, não mandar animais com comportamento estranho ou que aparentemente não esteja sadio. Tem que mostrar a qualidade do produto que você está vendendo”, ressalta.

Por mais que trabalhe, o pecuarista sempre enfrenta o risco dos preços baixos pagos ao produtor. Em momentos assim, ele acredita que é preciso ser teimoso. “A gente vê as cotações e a arroba do boi baixando, o custo dos insumos aumentado, faz as contas e vê que dessa vez vai tomar prejuízo. Fica desesperado, mas não desiste. Eu vou tomar prejuízo, mas vou recuperar na próxima”, afirma

Atualmente, a qualidade de vida da família de Antônio melhorou muito e eles estão bem adaptados à cidade. Diferentemente de quando saiu de lá, a esposa se nega a voltar para Curitiba. Ele brinca: “Você quer voltar para Curitiba?”. E ela responde: “Não, de maneira alguma, não quero voltar. Nosso lugar é aqui”.

A família faz trabalhos voluntários há mais de 20 anos através de uma organização maçônica da qual Antônio é membro. Nas férias de fim de ano, eles costumam passear em Curitiba.

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SUA HISTÓRIA

‘Cresci, quebrei e precisei recomeçar do zero’

Conheça a história do pecuarista Antônio Garcia da Silva. Ele se orgulha de ser um produtor que “sente como é acordar cedo e está lá, diariamente, tomando as decisões”

03 de maio de 2018 às 11h06
Por Karoline Meira | São Paulo

Fonte: Antônio Garcia/arquivo pessoal

O pecuarista Antônio Garcia da Silva desfrutou dos prazeres de uma infância simples, mas feliz, como boa parte das crianças nascidas no campo. Junto dos dois irmãos, foi testemunha das conquistas dos pais no interior de Mato Grosso do Sul. O pai, Lourenço, plantava arroz, milho e café como meeiro. Aos sete anos, Antônio começou a trabalhar na roça para ajudá-lo.

“Eu quero preservar esse modo de vida.”

“Levava o almoço para o meu pai e por lá ficava, ajudando a preparar o terreno para plantar. Ajudava a plantar milho, arroz e feijão”, recorda.  Ali foi criado e incentivado pelos pais a trilhar o mesmo caminho.

“É uma coisa muito prazerosa. Veio de herança, meu pai deixou isso para mim. Eu quero preservar esse modo de vida. Apesar de ser muito trabalhoso, é um prazer lidar com o campo”, diz orgulhoso. Antônio carrega os bons momentos de sua infância e com a sua família. O predileto são as bodas de ouro de seus pais.

Foto: arquivo pessoal

Apesar de ter começado a trabalhar muito cedo, os pais fizeram questão que o filho estudasse e Antônio passou a morar na fazenda do tio, próximo a Inocência (MS). “Comecei a estudar com nove anos de idade. Quando fui para a escola, eu já sabia as quatro operações. Sabia ler e escrever”, disse.

Como qualquer criança, Antônio relembra suas histórias de colégio com os amigos. “Em uma feira de ciências, isso no ginásio, conseguiram um crânio humano. Nosso grupo tinha que expor uma forma de energia. Nós mostramos uma maquete de uma hidroelétrica. Mas aprontamos uma presepada. Conseguimos uma vela e colocamos ela acesa dentro do crânio do outro grupo para assustar as pessoas. Resultado: nosso trabalho foi desclassificado porque nos deduraram”, brinca.

Durante a juventude, Antônio se mudou para Três Lagoas (MS) para concluir o ensino médio. Em 1976 foi para Curitiba (PR). Na capital paranaense, cursou ciências econômicas na Universidade Federal do Paraná.

Na faculdade, Antônio conheceu estudantes alemães. Um deles o convidou a fazer especialização em cooperativismo na Alemanha. Antônio chegou a ir ao consulado, mas mudou de ideia. “Não vou mexer com isso, eu não domino a língua”, disse na época. Perdeu essa oportunidade de mudar completamente a vida. Uma outra oportunidade surgiu na mesma época, mas esta ele não deixou passar.

Foi em Curitiba que ele conheceu Celina. Ela é formada em administração de empresas pela Pontifícia Universidade Católica (PUC-PR). Com o tempo, o namoro virou casamento. E unidos eles atravessaram a primeira grande crise.

“Tive que reestruturar a minha vida.”

Em 1990, Lourenço, o pai de Antônio, teve uma crise de depressão. Ele vivia em Três Lagoas (MS), para onde o casal se deslocou e viveu por um ano. Foi durante esse período que nasceu Maurício, o filho de Antônio e Celina. Isso melhorou bastante o astral da família. Com Lourenço melhor de saúde, a família voltou para a capital paranaense.

Se dependesse da vontade da mulher, eles jamais teriam deixado Curitiba. Mas, apesar da contrariedade de Celina, a família se mudou para Inocência (MS) em 1994. Deixaram para trás todas as facilidades que uma cidade grande oferece, para conhecer e se adaptar à calmaria de um pequeno município e o trabalho duro no campo.

“Tem que se adaptar a uma nova realidade. Saímos de uma cidade com 1,8 milhão de habitantes e fomos para uma com apenas sete mil. É uma grande diferença. Eu tinha todo o conforto em Curitiba: médico, supermercado e açougue na esquina. Aqui, não tem essa facilidade. Tive que reestruturar a minha vida.”

Em meio às dificuldades para se adaptar, Antônio resolveu construir uma nova casa e, na sequência, enfrentou uma grande crise financeira pela falta de emprego na região. “Eu gastei toda a minha poupança, não tinha capital de giro e tive que recomeçar tudo do zero”, afirma. Hoje, ele se arrepende de ter gasto com a construção da casa e disse que, se voltasse no tempo, teria pego o dinheiro e investido em gado.

Hoje com 64 anos, Antônio compara a Inocência atual com a de sua infância. “Tem muita diferença. As coisas evoluem, e a gente percebe. Meu pai vendia muito na época, tinha muito laticínio aqui. Era tudo manual. Ele tirava o leite na mão, sem o mínimo de critério e higiene. Não tinha orientação”, diz.

Depois de prestar assessoria em uma empresa de produtos lácteos e trabalhar em uma transportadora de cargas em Curitiba, Antonio abriu um escritório de contabilidade e prestou assessoria para o Sindicato dos Produtores Rurais em Inocência e chegou a fundar uma cooperativa de leite na cidade. “Eu fornecia leite para a cooperativa, mas o mercado era difícil. Então eu saí”, conta. Hoje, ele mantém contato com a cooperativa e continua fornecendo informações e orientações.

Antônio lembra e analisa as transformações que a sua cidade passou. “Transformação foi quando o governo liberou muitos financiamentos a longo prazo para os produtores rurais. O que era cerrado, se transformou em pastagens. As terras no ínicio eram muito baratas, e deu para o meu pai comprar uma área de 147 alqueires paulistas”, diz.

“O que era grandes extensões de terra com baixa renda se transformou, e as grandes áreas foram fracionadas em propriedades menores e mais produtivas com a elevação da renda. O financiamento chamava-se Polocentro para a região Centro-Oeste”, lembra. O pecuarista e economista está começando a escrever sobre desenvolvimento e diz que este modelo pelo qual a cidade passou chama muita a sua atenção.

O pecuarista se orgulha muito do seu trabalho e faz questão de acompanhar cada detalhe das atividades feitas em sua propriedade: “Sempre digo para a minha família que o produtor de verdade é aquele que gosta da atividade. Não aquele que mora em São Paulo, tem uma propriedade aqui e vem fazer turismo. Estou falando do produtor que sente como é acordar cedo todos os dias e está lá, diariamente, tomando as decisões”.

“A gente faz as contas e vê que dessa vez vai tomar prejuízo.”

Foto: arquivo pessoal

Antônio tem 137 cabeças de gado. Fiel a seus princípios, ele fica atento a cada detalhe de seu rebanho. “A gente tem que acompanhar a saúde do animal, a vigilância sanitária, não mandar animais com comportamento estranho ou que aparentemente não esteja sadio. Tem que mostrar a qualidade do produto que você está vendendo”, ressalta.

Por mais que trabalhe, o pecuarista sempre enfrenta o risco dos preços baixos pagos ao produtor. Em momentos assim, ele acredita que é preciso ser teimoso. “A gente vê as cotações e a arroba do boi baixando, o custo dos insumos aumentado, faz as contas e vê que dessa vez vai tomar prejuízo. Fica desesperado, mas não desiste. Eu vou tomar prejuízo, mas vou recuperar na próxima”, afirma

Atualmente, a qualidade de vida da família de Antônio melhorou muito e eles estão bem adaptados à cidade. Diferentemente de quando saiu de lá, a esposa se nega a voltar para Curitiba. Ele brinca: “Você quer voltar para Curitiba?”. E ela responde: “Não, de maneira alguma, não quero voltar. Nosso lugar é aqui”.

A família faz trabalhos voluntários há mais de 20 anos através de uma organização maçônica da qual Antônio é membro. Nas férias de fim de ano, eles costumam passear em Curitiba.

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