RETROSPECTIVA 2017 / PERSPECTIVA 2018

Trigo: desestimulado, setor não acredita em melhoras em 2018

Clima impôs redução de produção e afetou a qualidade do grão obtido no ano passado; agricultores devem diminuir área de plantio 

Fonte: Antonio Costa/AENPr

Em 2017, a cultura de trigo novamente contabilizou perdas e sofreu com a comercialização. A safra foi 52% menor que a anterior, que teve recorde histórico de produtividade. Desestimulado, o setor não acredita em melhoras significativas em 2018.

O Rio Grande do Sul colheu pouco trigo neste último ciclo: cerca de um milhão de toneladas. Os problemas já começaram no plantio, por causa do excesso de chuva, como lembra o produtor Antolí Mello. “Foram 540 milímetros durante o mês de maio, geralmente é em torno de 130 a 170 milímetros o normal”, afirma. Segundo o triticultor, foi o maior índice de chuva dos últimos dez anos.

A umidade também prejudicou o desenvolvimento da planta e derrubou a qualidade do trigo. “O grão não ficou bom para farinha”, diz o produtor João Soldá.

Houve produtor que pensou em abandonar a cultura, mas manteve o manejo apenas por necessidade. Claudemir Neckel Fernandes, por exemplo, afirma que continua com o trigo para manter o crédito junto ao banco, vinculado ao programa Mais Alimento.

Não tive lucro nenhum. Dei graças a Deus que cobri as despesas

 
Celso João Camponogara, por outro lado, permaneceu acreditando no grão e até ampliou a área, à espera de uma compensação mais tarde. Sua plantação, no entanto, também foi castigada pelo clima, perdendo volume e qualidade. Ele investiu na cultura esperando receber R$ 45 por saca, mas não obteve mais do que R$ 33. “Não tive lucro nenhum. Dei graças a Deus que cobri as despesas”, diz Camponogara.

Como se não bastasse o clima, o governo federal baixou em 3% o preço mínimo do trigo. Mas o produtor recebeu menos do que isso, já que a qualidade deixou a desejar. O presidente da Comissão de Trigo da Federação de Agricultura do Rio Grande do Sul (Farsul), Hamilton Jardim, mesmo quem produziu grãos de qualidade não conseguiu obter boa remuneração.  

Por mais um ciclo o trigo foi motivo de frustração. Seja pelo preço ou pela baixa produtividade, cada vez mais os agricultores do Rio Grande do Sul estão deixando de plantar o cereal, fazendo a área diminuir ano após ano. Em 2017, o plantio foi 10% menor do que no ciclo anterior, chegando a 699 mil hectares. Em 2018, tudo indica que a área seja reduzida ainda mais. 
 
“Nós vamos plantar metade do trigo e, no outro ano, nós paramos de plantar e governo vai ter que dizer se quer que a gente plante”, diz Antolí Mello. O produtor João Soldá também reduziu a área de 100 para 75 hectares e, neste ano, deve passar para 50 hectares.

 
Hamilton Jardim, da Farsul, afirma que regiões gaúchas onde a cultura é tradicional, como os Campos de Cima da Serra, devem permanecer atendendo a esse mercado. Mas a maioria dos produtores do estado deve diminuir sensivelmente a área de plantio. “O trigo está no fundo do poço, é um cenário de acomodação e achatamento de preços em nível internacional”, diz.

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