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DÍVIDAS ACUMULADAS

‘Entreguei colhedeira, caminhão e caminhonete e ainda estou endividado’

Agricultores de Gaúcha do Norte (MT) enfrentam um cenário desfavorável de custos desde a safra 2015/16; nos últimos cinco anos, 30 produtores do município já abandonaram o campo

13 de agosto de 2019 às 19h46
Por Pedro Silvestre, de Gaúcha do Norte (MT)

Mais de 30 produtores de Gaúcha do Norte (MT) abandonaram a atividade nos últimos cinco anos, segundo o sindicato rural do município. Mesmo aqueles que continuam no campo, como é o caso do agricultor Ari Baltazar Langer, estão endividados. “Já perdi duas áreas de terra. Entreguei colhedeira, caminhão, caminhonete e ainda estou muito endividado”, conta.

Langer estima que a dívida, principalmente dos arrendatários, corresponde à metade da renda de uma safra. “Daria uns seis anos para quitar. Se contar os juros absurdos que os bancos cobram, vai mais de seis anos”, diz.

A vice-presidente do sindicato rural, Neuza Wessner, afirma que boas áreas agricultáveis não faltam. Ela diz que a renda — apesar de menor em relação a outras cidades próximas — também não era ruim. Porém, os custos e os impostos vêm aumentando.

Neuza conta que a situação começou a sair do controle na safra 2015/2016, quando a região viveu uma forte estiagem. Ela diz que os financiamentos dos produtores foram prorrogados, mas a juros altos. “No ano seguinte, o problema só aumentou, porque tínhamos os custos daquela mais os da anterior. [O agricultor] Começou a não conseguir honrar com os seus compromissos, muitos perderam o CPF. Virou uma bola de neve”, relembra.

Os casos se multiplicam

Quatro anos atrás, Norberto Zeidler trocou a vida de agricultor pelo comércio. A decisão foi motivada pelas dificuldades e frustrações com a atividade. “A gente gosta de produzir, mas infelizmente ficamos de mãos amarradas. Isso dói bastante, porque tem toda uma história por trás, a do meu pai e do meu irmão”, conta, emocionado.

A dívida acumulada pelo produtor Romeu Volkweis nos últimos quatro anos o deixou sem acesso a crédito rural. Sem dinheiro para custear a próxima safra, ele ainda não sabe como cultivará a área de 3.100 hectares destinados ao grão na temporada 2019/2020. “Faz dois meses que estamos correndo atrás e não sabemos se vamos conseguir. Vamos depender das tradings, porque o banco zerou”, diz.

Nos últimos dois anos, a lavoura não pagou os custos de Alcides Zemolin, que precisou recorrer à pecuária. “A agricultura não está dando conta mais, não”, lamenta.

Problemas na pista

Norberto Zeidler conta que faltam estradas no município mato-grossense de Gaúcha do Norte e que o alto custo do combustível faz todos os insumos aumentarem também. As rodovias MT-129, MT-427 e BR-242, principais acessos, ainda são de chão. A promessa de pavimentação se arrasta há duas décadas.

A vice-presidente do sindicato local diz que a cobrança do Fundo Estadual de Transporte e Habitação (Fethab) foi dobrada nos dois últimos mandatos. Os recursos desse imposto deveriam ser destinados à logística do estado. “Contribuímos e não tivemos o prazer ainda de escoar a nossa produção em uma rodovia pavimentada. E o impacto não é só esse: anos atrás, quando começou o movimento da BR-242, várias empresas compraram terrenos para se instalar. Como as obras não foram concluídas, elas acabaram se instalando em outros pontos da região”, diz.

A reportagem do Canal Rural percorreu toda a extensão da MT-129. O caminho é estreito e cheio de buracos, pontes de madeira e reclamação de motoristas. “Quando falam em pegar frete para esses lados, a gente pensa bem. Tem vezes em que o chefe não manda porque desgasta muito o caminhão. Já cheguei ficar parado uma noite inteira com o caminhão quebrado”, afirma o caminhoneiro José Ferreira Mathias.

Para o agricultor Rafael Locatelli, se os produtores pegassem todo o dinheiro destinado até agora ao Fethab e investido na logística, o problema já teria sido resolvido.

5 comentários

  1. Letícia Domingues Corrêa em 13 de agosto de 2019 às 21:09

    Aqui no RS a situação não e diferente! Nós também , depois de mais de 20 anos produzindo arroz , tivemos que abandonar a agricultura, estamos endividados , sem crédito , sem CPF, já vendemos implementos, com dificuldade, pois ninguém está em condição de comprar , sem trabalho , e o pior , sem expectativas !!! O que nos resta e arrendar a grandes empresas rurais , que ainda conseguem produzir pelo volume que tem de produção , e tentar levar uma vida humilde , apenas pagando os custos do dia a dia e sem ter como pagar as dividas , pois no momento estão impagáveis !! Sinto que a agricultura está na UTI , principalmente os produtores de arroz do RS !!

  2. Sebastião Duarte em 13 de agosto de 2019 às 21:24

    O ploblema é só um os políticos são desonesto

  3. Claudio Pimenta em 14 de agosto de 2019 às 10:12

    Interessante a matéria! O CANAL RURAL poderia visitar a região de Monte Aprazível – SP e fazer o mesmo tipo de matéria com produtores de cana-de-açucar, que estão em situação pior ainda… Venham ver o que a mecanização da colheita da cana (o tal Protocolo Ambiental) fez com o setor e com as cidades de modo geral com relação ao desemprego… Fica minha sugestão. Fico a disposição no cel. 17-99771-7737.

  4. Lázaro Borges da Silva em 14 de agosto de 2019 às 12:47

    Infelizmente, o problema está espalhado por todas as atividades, seja comércio, produção de grãos, pecuária e assim por diante.

  5. Raimundo Gomes de cerqueira em 14 de agosto de 2019 às 16:01

    E o governo federal na época enviou dinheiro para países comunista e deixou de socorrer os agricultores e família brasileira que vivem no campo seja no sul, sudeste, centro oeste, Nordeste ou norte , isso é crime contra os cidadãos trabalhadores que vivem no campo, o pior disso tudo é que ainda veem uns fdp defender esses bandidos. Esperamos que este governo principalmente o ministro da fazenda junto com a da agricultura olhem para o produtor brasileiro.

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DÍVIDAS ACUMULADAS

‘Entreguei colhedeira, caminhão e caminhonete e ainda estou endividado’

Agricultores de Gaúcha do Norte (MT) enfrentam um cenário desfavorável de custos desde a safra 2015/16; nos últimos cinco anos, 30 produtores do município já abandonaram o campo

13 de agosto de 2019 às 19h46
Por Pedro Silvestre, de Gaúcha do Norte (MT)

Mais de 30 produtores de Gaúcha do Norte (MT) abandonaram a atividade nos últimos cinco anos, segundo o sindicato rural do município. Mesmo aqueles que continuam no campo, como é o caso do agricultor Ari Baltazar Langer, estão endividados. “Já perdi duas áreas de terra. Entreguei colhedeira, caminhão, caminhonete e ainda estou muito endividado”, conta.

Langer estima que a dívida, principalmente dos arrendatários, corresponde à metade da renda de uma safra. “Daria uns seis anos para quitar. Se contar os juros absurdos que os bancos cobram, vai mais de seis anos”, diz.

A vice-presidente do sindicato rural, Neuza Wessner, afirma que boas áreas agricultáveis não faltam. Ela diz que a renda — apesar de menor em relação a outras cidades próximas — também não era ruim. Porém, os custos e os impostos vêm aumentando.

Neuza conta que a situação começou a sair do controle na safra 2015/2016, quando a região viveu uma forte estiagem. Ela diz que os financiamentos dos produtores foram prorrogados, mas a juros altos. “No ano seguinte, o problema só aumentou, porque tínhamos os custos daquela mais os da anterior. [O agricultor] Começou a não conseguir honrar com os seus compromissos, muitos perderam o CPF. Virou uma bola de neve”, relembra.

Os casos se multiplicam

Quatro anos atrás, Norberto Zeidler trocou a vida de agricultor pelo comércio. A decisão foi motivada pelas dificuldades e frustrações com a atividade. “A gente gosta de produzir, mas infelizmente ficamos de mãos amarradas. Isso dói bastante, porque tem toda uma história por trás, a do meu pai e do meu irmão”, conta, emocionado.

A dívida acumulada pelo produtor Romeu Volkweis nos últimos quatro anos o deixou sem acesso a crédito rural. Sem dinheiro para custear a próxima safra, ele ainda não sabe como cultivará a área de 3.100 hectares destinados ao grão na temporada 2019/2020. “Faz dois meses que estamos correndo atrás e não sabemos se vamos conseguir. Vamos depender das tradings, porque o banco zerou”, diz.

Nos últimos dois anos, a lavoura não pagou os custos de Alcides Zemolin, que precisou recorrer à pecuária. “A agricultura não está dando conta mais, não”, lamenta.

Problemas na pista

Norberto Zeidler conta que faltam estradas no município mato-grossense de Gaúcha do Norte e que o alto custo do combustível faz todos os insumos aumentarem também. As rodovias MT-129, MT-427 e BR-242, principais acessos, ainda são de chão. A promessa de pavimentação se arrasta há duas décadas.

A vice-presidente do sindicato local diz que a cobrança do Fundo Estadual de Transporte e Habitação (Fethab) foi dobrada nos dois últimos mandatos. Os recursos desse imposto deveriam ser destinados à logística do estado. “Contribuímos e não tivemos o prazer ainda de escoar a nossa produção em uma rodovia pavimentada. E o impacto não é só esse: anos atrás, quando começou o movimento da BR-242, várias empresas compraram terrenos para se instalar. Como as obras não foram concluídas, elas acabaram se instalando em outros pontos da região”, diz.

A reportagem do Canal Rural percorreu toda a extensão da MT-129. O caminho é estreito e cheio de buracos, pontes de madeira e reclamação de motoristas. “Quando falam em pegar frete para esses lados, a gente pensa bem. Tem vezes em que o chefe não manda porque desgasta muito o caminhão. Já cheguei ficar parado uma noite inteira com o caminhão quebrado”, afirma o caminhoneiro José Ferreira Mathias.

Para o agricultor Rafael Locatelli, se os produtores pegassem todo o dinheiro destinado até agora ao Fethab e investido na logística, o problema já teria sido resolvido.

5 comentários

  1. Letícia Domingues Corrêa em 13 de agosto de 2019 às 21:09

    Aqui no RS a situação não e diferente! Nós também , depois de mais de 20 anos produzindo arroz , tivemos que abandonar a agricultura, estamos endividados , sem crédito , sem CPF, já vendemos implementos, com dificuldade, pois ninguém está em condição de comprar , sem trabalho , e o pior , sem expectativas !!! O que nos resta e arrendar a grandes empresas rurais , que ainda conseguem produzir pelo volume que tem de produção , e tentar levar uma vida humilde , apenas pagando os custos do dia a dia e sem ter como pagar as dividas , pois no momento estão impagáveis !! Sinto que a agricultura está na UTI , principalmente os produtores de arroz do RS !!

  2. Sebastião Duarte em 13 de agosto de 2019 às 21:24

    O ploblema é só um os políticos são desonesto

  3. Claudio Pimenta em 14 de agosto de 2019 às 10:12

    Interessante a matéria! O CANAL RURAL poderia visitar a região de Monte Aprazível – SP e fazer o mesmo tipo de matéria com produtores de cana-de-açucar, que estão em situação pior ainda… Venham ver o que a mecanização da colheita da cana (o tal Protocolo Ambiental) fez com o setor e com as cidades de modo geral com relação ao desemprego… Fica minha sugestão. Fico a disposição no cel. 17-99771-7737.

  4. Lázaro Borges da Silva em 14 de agosto de 2019 às 12:47

    Infelizmente, o problema está espalhado por todas as atividades, seja comércio, produção de grãos, pecuária e assim por diante.

  5. Raimundo Gomes de cerqueira em 14 de agosto de 2019 às 16:01

    E o governo federal na época enviou dinheiro para países comunista e deixou de socorrer os agricultores e família brasileira que vivem no campo seja no sul, sudeste, centro oeste, Nordeste ou norte , isso é crime contra os cidadãos trabalhadores que vivem no campo, o pior disso tudo é que ainda veem uns fdp defender esses bandidos. Esperamos que este governo principalmente o ministro da fazenda junto com a da agricultura olhem para o produtor brasileiro.

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