MANEJO

Bezerro desmamado na Embrapa não se estressa e ganha peso mais rapidamente

Manejo racional separa filhotes das mães apenas por um corredor, eliminando fugas e reduzindo rompimento de cercas pelos animais apartados

Fonte: Daniele Merola/Embrapa

Um manejo diferenciado na hora de fazer o desmame de gado bovino na Embrapa Pecuária Sudeste, em São Carlos (SP), está mostrando bons resultados. Os bezerros de corte, com cerca de oito meses de idade, são separados da vaca apenas por um corredor, em pastos diferentes, nos quais a mãe e o filho mantêm contato visual, auditivo e olfativo. 

Segundo a pesquisadora Cíntia Marcondes, essa forma de desmame, chamada de racional, diminui o estresse causado pela separação e melhora o bem-estar. Ela explica que o novo manejo está sendo usado desde 2014 em animais cruzados e, em 2015, em exemplares da raça canchim. 

No método tradicional de desmame, o bezerro é apartado da mãe e levado a locais distantes, para que não haja nenhum tipo de contato. Para minimizar o estresse, é comum o pecuarista colocar algumas vacas junto aos bezerros para servirem de “madrinhas”. Nesse método, nenhuma das fêmeas é mãe do animal desmamado e os problemas causados pela separação continuam.

O veterinário da Embrapa Raul Mascarenhas afirma que os animais da Fazenda Canchim, sede da Embrapa Pecuária Sudeste, adaptaram-se bem e demonstram um grau menor de estresse, comparando-se ao manejo em que ficavam distantes das mães. Não ocorreram mais fugas e houve redução de rompimento de cercas e lesões nos animais, informa o veterinário. 
 
Na desmama tradicional é comum que tanto as vacas como os bezerros permaneçam vocalizando durante dias. Muitos animais, ao ouvirem o berro dos filhos, arrebentam cercas para irem ao seu encontro. Nesse percurso, há grande chance de sofrerem acidentes. Além disso, passam mais tempo caminhando e estressados. Com isso, deixam de se alimentar, ruminar e descansar, causando prejuízos econômicos ao produtor. O estresse reduz o ganho de peso do bezerro e afeta sua imunidade, deixando-o mais vulnerável a doenças.

Teste

Para confirmar os benefícios da desmama racional, os pesquisadores da Embrapa realizaram a avaliação de temperamento em dois grupos de bovinos da raça canchim. Foram comparados 236 animais da desmama tradicional e 227 da racional. No teste analisaram-se informações de reatividade animal em ambiente de contenção móvel, como na balança de pesagem, local onde são contidos para realizar a medida de reatividade. 

No experimento foi utilizada uma nova tecnologia. O Reatest, desenvolvido pela zootecnista Walsiara Maffei, durante seu doutorado na Universidade Federal de Minas Gerais, é uma metodologia usada para medir o temperamento por meio da reatividade. 

Um dispositivo eletrônico quantifica a frequência e a intensidade dos movimentos do bovino no processo de pesagem, numa escala de 1 a 9.999 pontos. Durante 20 segundos, o equipamento capta a reatividade e os dados ficam armazenados em um software específico. As maiores pontuações indicam animais mais reativos, ou seja, que apresentam maior estresse quando contidos na balança.

Segundo a pesquisadora Patrícia Tholon, a análise do experimento mostrou que animais submetidos a desmama racional foram menos reativos que o grupo da tradicional. “Os maiores valores de reatividade foram apresentados pelas fêmeas, mostrando que o sexo influencia consideravelmente a expressão dessa característica”, explica Patrícia. 
 
O método da desmama racional já foi implantado definitivamente na Embrapa Pecuária Sudeste, diz a pesquisadora Cintia Marcondes. “Outros lotes de animais serão avaliados para dar maior robustez às análises”, afirma. 

O objetivo é identificar a porção genética da característica de temperamento para poder utilizá-la na seleção dos animais da raça canchim, já que tal comportamento teria influência no desempenho do animal. De acordo com a Embrapa, bovinos reativos têm menor ganho de peso diário, desempenho reprodutivo inferior, resistência mais baixa a ecto e endoparasitas que animais mansos. Além disso, o manejo seria mais difícil e os riscos de acidentes de trabalho, mais altos.

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