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ARTIGO

Cultura da soja no Brasil exige reflexão

Engenheiro agrônomo faz questionamento quanto ao uso constante de uma mesma tecnologia, o que leva ao surgimento de problemas

26 de maio de 2019 às 17h26
Por Áureo Francisco Lantmann
soja em grão, colheita

soja em grão, colheita

Concluída a colheita da safra de soja 2018/2019, inicia-se a programação para a próxima. Além das providências normais, julgo ser necessária uma reflexão.

Em breve retrospecto, a cultura da soja no Brasil já passou por muitas transformações. Saímos do plantio convencional, com arações e gradagens, e adotamos o plantio direto. Uma mudança realmente significativa no tocante à proteção do solo e à redução de operações. Haja vista que o preço elevado do óleo diesel atualmente inviabilizaria tais operações.

Reduzimos o plantio de trigo, principalmente por doenças, como o “mal do pé” e dificuldades na  comercialização após extinção da Comissão para a Compra do Trigo Nacional (Cetrin). E entramos fortemente no plantio do milho safrinha (segunda safra), que hoje não tem nada de “safrinha”, e sim de uma pujança enorme na produção de milho, tornando-se a principal safra brasileira do
cereal.

Abraçamos o plantio de soja transgênica (RR), com suas “facilitações” utilizando o glifosato na condução das lavouras, e com alto potencial produtivo. Tantas outras mudanças ocorreram na agricultura brasileira nos últimos tempos com as novas tecnologias, maquinários, manejo de solos, aparecimento da lagarta helicoverpa, do nematoide de cisto e da ferrugem.

Todos esses fatores fizeram com que pesquisadores, engenheiros agrônomos, técnicos e agricultores se comportassem de forma diferente na busca de adequações para obter o sucesso no agronegócio.

Dentre tantas mudanças, sem dúvida alguma, a adoção do plantio da soja transgênica foi uma das mais significativas. Obviamente trouxe inúmeros benefícios e trará ainda outros tantos, para a estabilidade da cultura em solos do Brasil. Com a transgenia facilitou-se a condução das lavouras de soja, minimizando-se um grande problema, que era o controle de ervas daninhas que competiam por nutrientes com a soja, bem como tornou-se mais econômico tal controle.

Há um paradigma na agricultura, fortemente impactante nas culturas anuais como a soja, o trigo e o milho, que diz o seguinte: o uso constante de uma mesma tecnologia leva ao surgimento de problemas. Há que se entender que a agricultura é intensamente dependente de fatores biológicos, e fatores biológicos reagem facilmente quando o sistema de produção é contínuo sem alterações durante muito tempo. O uso contínuo, de mesma tecnologia, facilita reações biológicas adversas ao sistema como a resistência de pragas, de doenças e de ervas daninha aos agroquímicos, tornando mais difícil seu controle.

Pragas, doenças e ervas daninha têm, no sistema de produção atual, um campo fértil para reações adversas no cultivo da soja, milho e trigo. Com a chegada da soja transgênica, estabeleceu-se uma tecnologia exclusiva, quando na verdade, deveria ser considerada como mais uma opção.

Ao que se visualiza, esse sistema de plantio soja e milho em sucessão, deverá sofrer uma “inflexão”, ou seja, mudar a forma de condução das lavouras.

Outro ponto, é que no atual sistema de condução reside o uso intensivo de glifosato, que, além da seleção de ervas daninhas, hoje sofre sérias restrições da parte de alguns países importadores da soja nacional.

A substituição do glifosato por outros herbicidas não deixará de ser outro ponto de inflexão.
Diante desse quadro, a soja convencional vem ganhando espaço nos campos de produção, por várias razões:

a) O custo das sementes da soja convencional é significativamente menor que o da transgênica.

b) Não se pagam royalties sobre essa semente de soja convencional.

c) Hoje o custo de produção da soja transgênica é semelhante ao de convencional.

d) O potencial produtivo da soja convencional é igual ou maior que a transgênica. Em ensaios de competição realizados no Paraná, cultivares convencionais como a BRS 284 (5505 kg/ha) e BRS 511 (5407 kg/ha) superam a produtividade da maioria das cultivares transgênicas, principalmente no plantio do cedo até 15 de
outubro.

e) Paga-se um prêmio ao agricultor, sobre a soja convencional, de aproximadamente 8% a 10% do valor do grão. Atualmente, de R$ 6 a R$ 7 por saca de 60 kg. Portanto, há que se prestar atenção a essa inflexão por parte dos agricultores, afinal, é uma opção interessante e lucrativa.

O que se apresentou aqui se refere ao momento atual pelo qual passa o cultivo da soja em grande parte do território nacional. Fato esse que deverá prevalecer para as próximas safras, entretanto, cabem reflexões, considerando-se que a o plantio de soja transgênica dependente do uso intensivo do glifosato.

Cabe no presente artigo, a seguinte consideração. O fórum econômico mundial (WEF) ocorrido em 2017 em Davos, Suíça, considerou como uma das premissas na produção de alimentos para uma população de 8,5 bilhões de pessoas, até 2030 com qualidade e sustentabilidade, o seguinte:

“A produção de produtos alimentares e agrícolas deverá ter foco no impacto ambiental e implicações na saúde dos consumidores”.

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1 comentário

  1. David em 27 de maio de 2019 às 07:59

    A convencional tem suas vantagens, mas também tem desvantagens. Uma delas é a baixa resistência a seca, a 284 é muito sensível a estresse hídrico e também não tem tolerância/resistência a nematóides. Também o mercado da convencional, é meio confuso. Explico: no ano passado, houve mercado diferenciado para convencional o ano todo, esse ano, o bônus foi pago somente até final de abril, depois, o preço passou o mesmo da rr1 ou rr2.
    Outro detalhe: o fato de plantar transgênica, não necessariamente obriga o agricultor a usar glifosato, mas torna maus simples o manejo de ervas daninhas.
    Por fim, quanto a questão do preço da semente, as intactas são as mais caras, principalmente por conta dos royalts, o qual deve deixar de existir nos próximos anos.

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Cultura da soja no Brasil exige reflexão

Engenheiro agrônomo faz questionamento quanto ao uso constante de uma mesma tecnologia, o que leva ao surgimento de problemas

26 de maio de 2019 às 17h26
Por Áureo Francisco Lantmann
soja em grão, colheita

soja em grão, colheita

Concluída a colheita da safra de soja 2018/2019, inicia-se a programação para a próxima. Além das providências normais, julgo ser necessária uma reflexão.

Em breve retrospecto, a cultura da soja no Brasil já passou por muitas transformações. Saímos do plantio convencional, com arações e gradagens, e adotamos o plantio direto. Uma mudança realmente significativa no tocante à proteção do solo e à redução de operações. Haja vista que o preço elevado do óleo diesel atualmente inviabilizaria tais operações.

Reduzimos o plantio de trigo, principalmente por doenças, como o “mal do pé” e dificuldades na  comercialização após extinção da Comissão para a Compra do Trigo Nacional (Cetrin). E entramos fortemente no plantio do milho safrinha (segunda safra), que hoje não tem nada de “safrinha”, e sim de uma pujança enorme na produção de milho, tornando-se a principal safra brasileira do
cereal.

Abraçamos o plantio de soja transgênica (RR), com suas “facilitações” utilizando o glifosato na condução das lavouras, e com alto potencial produtivo. Tantas outras mudanças ocorreram na agricultura brasileira nos últimos tempos com as novas tecnologias, maquinários, manejo de solos, aparecimento da lagarta helicoverpa, do nematoide de cisto e da ferrugem.

Todos esses fatores fizeram com que pesquisadores, engenheiros agrônomos, técnicos e agricultores se comportassem de forma diferente na busca de adequações para obter o sucesso no agronegócio.

Dentre tantas mudanças, sem dúvida alguma, a adoção do plantio da soja transgênica foi uma das mais significativas. Obviamente trouxe inúmeros benefícios e trará ainda outros tantos, para a estabilidade da cultura em solos do Brasil. Com a transgenia facilitou-se a condução das lavouras de soja, minimizando-se um grande problema, que era o controle de ervas daninhas que competiam por nutrientes com a soja, bem como tornou-se mais econômico tal controle.

Há um paradigma na agricultura, fortemente impactante nas culturas anuais como a soja, o trigo e o milho, que diz o seguinte: o uso constante de uma mesma tecnologia leva ao surgimento de problemas. Há que se entender que a agricultura é intensamente dependente de fatores biológicos, e fatores biológicos reagem facilmente quando o sistema de produção é contínuo sem alterações durante muito tempo. O uso contínuo, de mesma tecnologia, facilita reações biológicas adversas ao sistema como a resistência de pragas, de doenças e de ervas daninha aos agroquímicos, tornando mais difícil seu controle.

Pragas, doenças e ervas daninha têm, no sistema de produção atual, um campo fértil para reações adversas no cultivo da soja, milho e trigo. Com a chegada da soja transgênica, estabeleceu-se uma tecnologia exclusiva, quando na verdade, deveria ser considerada como mais uma opção.

Ao que se visualiza, esse sistema de plantio soja e milho em sucessão, deverá sofrer uma “inflexão”, ou seja, mudar a forma de condução das lavouras.

Outro ponto, é que no atual sistema de condução reside o uso intensivo de glifosato, que, além da seleção de ervas daninhas, hoje sofre sérias restrições da parte de alguns países importadores da soja nacional.

A substituição do glifosato por outros herbicidas não deixará de ser outro ponto de inflexão.
Diante desse quadro, a soja convencional vem ganhando espaço nos campos de produção, por várias razões:

a) O custo das sementes da soja convencional é significativamente menor que o da transgênica.

b) Não se pagam royalties sobre essa semente de soja convencional.

c) Hoje o custo de produção da soja transgênica é semelhante ao de convencional.

d) O potencial produtivo da soja convencional é igual ou maior que a transgênica. Em ensaios de competição realizados no Paraná, cultivares convencionais como a BRS 284 (5505 kg/ha) e BRS 511 (5407 kg/ha) superam a produtividade da maioria das cultivares transgênicas, principalmente no plantio do cedo até 15 de
outubro.

e) Paga-se um prêmio ao agricultor, sobre a soja convencional, de aproximadamente 8% a 10% do valor do grão. Atualmente, de R$ 6 a R$ 7 por saca de 60 kg. Portanto, há que se prestar atenção a essa inflexão por parte dos agricultores, afinal, é uma opção interessante e lucrativa.

O que se apresentou aqui se refere ao momento atual pelo qual passa o cultivo da soja em grande parte do território nacional. Fato esse que deverá prevalecer para as próximas safras, entretanto, cabem reflexões, considerando-se que a o plantio de soja transgênica dependente do uso intensivo do glifosato.

Cabe no presente artigo, a seguinte consideração. O fórum econômico mundial (WEF) ocorrido em 2017 em Davos, Suíça, considerou como uma das premissas na produção de alimentos para uma população de 8,5 bilhões de pessoas, até 2030 com qualidade e sustentabilidade, o seguinte:

“A produção de produtos alimentares e agrícolas deverá ter foco no impacto ambiental e implicações na saúde dos consumidores”.

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  1. David em 27 de maio de 2019 às 07:59

    A convencional tem suas vantagens, mas também tem desvantagens. Uma delas é a baixa resistência a seca, a 284 é muito sensível a estresse hídrico e também não tem tolerância/resistência a nematóides. Também o mercado da convencional, é meio confuso. Explico: no ano passado, houve mercado diferenciado para convencional o ano todo, esse ano, o bônus foi pago somente até final de abril, depois, o preço passou o mesmo da rr1 ou rr2.
    Outro detalhe: o fato de plantar transgênica, não necessariamente obriga o agricultor a usar glifosato, mas torna maus simples o manejo de ervas daninhas.
    Por fim, quanto a questão do preço da semente, as intactas são as mais caras, principalmente por conta dos royalts, o qual deve deixar de existir nos próximos anos.

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